FOI COM MEDO DE AVIÃO...

O zine A Falecida perguntou a algumas pessoas quais suas histórias, reais ou imaginárias, sobre o medo (ou não) de voar. Confira aqui os depoimentos completos dos músicos Kléber Albuquerque e Edvaldo Santana:
Mais pesado do que o ar Por Kléber Albuquerque
Não costumo ter medo de voar. Gosto de olhar as nuvens pela janelinha. Sorrio para a aeromoça. Como a barra de cereais sem grandes problemas. E nunca tinha passado por nenhuma situação mais incomum em aeroportos, pelo menos não mais complicada do que algumas viagens de ônibus, trem, charrete ou ácido que eu já possa ter feito na vida. Aliás, o desconforto que às vezes sinto dentro de uma aeronave fica mais por conta daquele aspecto entre hospital e salão de beleza dos anos setenta do que propriamente medo de um acidente. Simplesmente procuro não pensar. Mastigo a barra de cereal, leio as amenidades das revistas de bordo (notícias cereais), assisto com o olhar cívico à coreografia das aeromoças (adoro sobretudo o número das máscaras que caem automaticamente), leio as informações de segurança. Enfim, cidadão exemplar, mil horas de vôo, ar blasê de quem prepara um chá. Nervos de aço. Macho que só.
Até um dia que:
Estávamos eu, o Flávio, meu produtor, e o Estevan Sinkovitz, guitarrista dos bons, bandolinista de responsa e razoável beque central do nosso time de futebol society. Íamos tocar no Rio, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos. Tava tudo certo. Não houve atraso. Levantamos vôo como passarinho. As casas ficando pequeninhas, o rio virando riozinho; o morro, morrinho. Tudo certo. Céu de brigadeiro, nuvem de algodão-doce. O engenho humano botando aquele tubo de lata e ferro mais pesado do que o ar pra furar horizontes e nós ali dentro, mascando barra de cereal e sorrindo pras nuvens. Nos conformes. Só que, depois de um tempo, o avião começou a descrer do engenho humano. E pra deixar bem clara a desconfiança na espécie, começou a chacoalhar de um jeito que eu nunca vi, como se estivesse descendo uma corredeira, como se fosse um carrinho de rolimã em rua de paralelepípedo. Era uma gigantesca turbulência. Depois de alguns minutos de grave sacolejo, o comandante, para nos acalmar, pediu que ficássemos calmos, o que deixou a todos bem nervosos. Disse com voz calma (o que só comprova que também devia estar morrendo de medo!) que estávamos passando por uma turbulência (Ah! Bom!) mas que, obviamente, estava tudo sob controle (o que começou a nos deixar irremediavelmente descontrolados). Disse que estávamos sobre o aeroporto, porém, devido a forte tempestade, não encontrava jeito de pousar. Iniciamos as rezas. No meu quinto pai-nosso o comandante, com aquela voz calma, falou que estávamos sobrevoando Maringá (?!?) e que, em breve, iríamos pousar.
Aí, de repente, não mais que de repente, olho pela janelinha e vejo emparelhado, a alguns metros de distância, um outro avião. Juro que daria pra ver o piloto da outra aeronave dando tchauzinho, caso ele também estivesse empenhado – como nosso comandante – em nos passar tranquilidade e segurança. Daria até pra gente ver o positivo, caso ele fizesse um positivo com o polegar, apesar de que isso também não seria uma ação adequada, considerando o momento e a situação positivamente negativas. Na verdade, daria pra ver o brilho da obturação no sorriso do piloto do outro avião, se o piloto do outro avião estivesse para risos naquela hora. Mas não estava. Nem nenhum de nós dentro daquele nosso tubo de plástico e lata mais pesado que o ar estávamos para riso também. Para ser sincero, não sei se teria ânimo para responder ao hipotético tchauzinho do piloto do outro avião. Nem que ele estivesse sorrindo muito. Aumentei foi o volume das rezas, no intuito de facilitar o trabalho da onipresente, onisciente e onipotente audição.
Daí Deus resolveu intervir e, com seu polegar e indicador divinos em forma de pinça, pegou nosso tubo de plástico e lata mais pesado do que o ar e o colocou com um leve solavanco na pista do Santos Dumont.
(O show foi ótimo. Pergunte pro Estevan e pro Flávio. E a Dutra estava uma beleza na volta).
Tem músico nesse avião! Edvaldo Santana
Tenho muito medo de avião prefiro ir pelo chão do que pelo ar.Quando tenho que viajar tento de todas as formas mudar o transporte,é claro que quando a viagem de trabalho é longa o avião é necessário. Tenho uma sensação de completa impotência quando estou voando. Já cheguei a perder passagem de avião e comprar de ônibus no retorno de shows pelo Brasil.
Numa certa ocasião voltando de Cuiabá para São Paulo, antes de descer em Cumbica, o piloto deu de cara com uma nuvem muito densa e a turbulência causou desespero em todo mundo. Tinha uma senhora que gritava para o marido: - eu não disse que esse avião ía cair? Tem músico nesse avião!
A maioria dos passageiros rezavam pedindo perdão dos pecados e fazendo promessas que se continuassem vivos iriam tratar melhor o semelhante. Alguns se agarravam nos terços e rosários. Muita gente chorava e eu nunca havia presenciado tanta agonia e resignação, meu corpo todo doía e tremia, em poucos segundos o piloto conseguiu arremeter o avião e a sensação de alívio tomou conta de todos, parecia que a vida estava começando ali. Fui correndo ligar pra minha mãe Judite, desabafando minha paúra e alegria de continuar vivo.
Tem uma música minha nesse novo álbum, "Reserva de Alegria", que diz: Será que é só com a dor, que a gente é capaz de lembrar da Paz. Será que se for por amor alguém é capaz.
Crédito da imagem: O Grito, de Munch, com o avião ao fundo, é do site Resistir (http://resistir.info/)
Escrito por Angelo Davanço às 11h11
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